Artigo de opinião | Valorizar os contabilistas

19 Nov 2021
Artigo de Opinião Rui Marques

Decorreu ontem a eleição para a Ordem dos Contabilistas Certificados. Há hora que escrevo ainda não se sabe quem será o próximo Bastonário, mas para o efeito desta crónica também não é relevante.

Apesar de desempenharem um papel fulcral na vida e gestão de qualquer empresa e de serem um parceiro chave do Ministério das Finanças na implantação e desenvolvimento do sistema fiscal português, os contabilistas são uma das classes profissionais menos valorizadas na economia portuguesa.

Na realidade empresarial, para além de apoiarem as empresas a cumprirem com todas as suas obrigações declarativas – e não são poucas -, os contabilistas são responsáveis pelo sistema de contabilização de todos os custos e receitas, bem como de todos os ativos e responsabilidades das empresas, de modo a que a contabilidade reflita com eficácia e transparência toda a situação económica e financeira das mesmas.

Assim, atendendo à sua formação técnica, à sua experiência e ao facto de serem profundos conhecedores da realidade financeira das empresas, os contabilistas devem ser considerados como um importante apoio na gestão empresarial.

Infelizmente, não é isto que sucede. De uma forma geral, o mais comum é o empresário procurar o serviço de contabilidade o mais em conta possível e o contabilista, atendendo ao baixo valor cobrado, resumir o seu trabalho aos serviços mínimos, leia-se obrigatórios, como é o caso do preenchimento de todas as obrigações declarativas do ponto de vista fiscal e contributivo.

Ora, é fundamental que os contabilistas passem a prestar serviços de valor acrescentado às empresas. Ou seja, que lhes forneçam de forma periódica retratos da sua situação económica e financeira e as aconselhem ao nível da gestão para que sejam mais organizadas, mais eficientes, mais sustentáveis e mais rentáveis.

Para isso, naturalmente, será necessário que o valor das avenças seja mais elevado e que cada contabilista passe a acompanhar um menor número de empresas, sob pena de não disporem do tempo necessário para prestarem um serviço de qualidade.

No entanto, este desejável processo de qualificação do serviço prestado pelos contabilistas não se antevê fácil, porque o sistema fiscal português não ajuda. A complexidade e burocracia do sistema têm efeitos muito perniciosos na vida das empresas e no dia-a-dia dos profissionais da contabilidade. O calendário mensal dos contabilistas está repleto de datas-limite para cumprimento de obrigações fiscais e contributivas, que, caso não sejam cumpridas, implicam coimas elevadas, em muitos casos até desproporcionadas face à gravidade das infrações cometidas. Ou seja, o tempo disponível para proceder à análise das contas, à elaboração de propostas de recomendações e à discussão destes assuntos com os empresários é manifestamente insuficiente.

Sem prejuízo da sobrecarga destas obrigações, os contabilistas são ainda vítimas de uma carga fiscal asfixiante sobre as empresas, que origina indesejados fenómenos de evasão fiscal que, consequentemente, tiram valor à contabilidade, já que, quando tal sucede, apenas a dimensão fiscal passa a ser relevante.

A propósito do valor das avenças, creio que os contabilistas podem e devem olhar para o exemplo dos profissionais de marketing digital que, com reconhecido sucesso, têm conseguido fazer com que o empresário percecione e valorize o trabalho por eles efetuado. Não deixa de ser paradoxal que em muitas PME a avença de gestão de redes sociais tenha um valor mais alto do que a avença cobrada pela contabilidade. Ainda que os empresários tenham uma maior predisposição pelas atividades que promovam negócio, a verdade é que um bom serviço de contabilidade implica um nível de responsabilidade incomensuravelmente mais elevado e pode representar a sustentabilidade futura da empresa e poupanças que podem ascender a milhares ou milhões de euros, em função da dimensão da empresa, através da assessoria de gestão e da otimização fiscal assegurada pelos contabilistas.

Um caso paradigmático do extraordinário papel desempenhado pelos contabilistas na vida das empresas é muito recente e está à vista de todos, ainda que sem o devido louvor e reconhecimento público. Falo do conjunto de medidas de apoio à proteção do emprego e à resiliência das nossas empresas que foram implementadas durante a pandemia de Covid-19. Milhares de empresas e de postos de trabalho sobreviveram às enormes dificuldades provocadas pela pandemia por causa dos apoios estatais a que acederam. E este acesso aos apoios em banda larga e de uma forma relativamente célere só foi possível graças ao envolvimento dos contabilistas no processo que, refira-se, não cobraram qualquer valor adicional aos seus clientes para assegurarem toda a tramitação processual que estes mecanismos de apoio implicaram.

É preciso, por isso, que os empresários percebam a mais-valia de um serviço de contabilidade de qualidade. E, a este nível, há um trabalho de sensibilização junto dos decisores das empresas que compete, sobretudo, aos próprios profissionais da contabilidade. Têm de ser eles a iniciar o seu processo de valorização. Devem, por isso, começar a falar mais para fora do que em circuito fechado dentro da própria classe. Para bem deles e para bem da economia portuguesa.

– artigo de opinião do Diretor Geral da ACB, Rui Marques, no Jornal Correio do Minho

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