Artigo de opinião | As profissões do futuro no Turismo

27 Jan 2023

O setor do turismo é uma atividade económica fundamental para a geração de riqueza e emprego em Portugal.

De 2010 a 2019, o país assistiu a um crescimento fulgurante desta “indústria” que, finalmente, passou de uma “eterna esperança” para uma “certeza” como setor fundamental para a estratégia de desenvolvimento e progresso do país, das suas regiões, vilas e cidades.

Neste período, registou-se em Portugal uma taxa de crescimento média anual de 7,2% nas dormidas, o que se traduz num aumento de 37 milhões de dormidas em 2010 para 70 milhões em 2019 – o maior valor de que há registo e que, provavelmente, será novamente atingido em 2022 (basta para isso que os números de dezembro não sejam inferiores aos do mês de novembro).

Observou-se, igualmente, um aumento significativo das receitas turísticas, que aumentaram neste período a uma taxa média de 10,3%, o que permitiu que passássemos de 7,6 mil milhões de euros de receitas em 2010 para 18,4 mil milhões de euros em 2019.

O número de empresas a operar no setor, bem como o número de pessoas ao serviço, também cresceram significativamente durante este período, à boleia do aumento expressivo da procura nacional e internacional, bem como do enorme dinamismo do setor. Assim, de 86 mil empresas que empregavam 293 mil pessoas em 2010, passamos para 118 mil empresas e 399 mil pessoas empregadas no setor.

Depois de um período de natureza completamente excecional a que o país e o mundo estiveram sujeitos durante a pandemia de Covid-19, que gerou quebras muito bruscas e de grande amplitude no setor, a atividade turística tem vindo a registar uma recuperação pós-pandémica bastante mais rápida do que inicialmente se supunha, estando, no entanto, a viver alguns problemas sérios ao nível da atração e manutenção de recursos humanos no setor.

A isto não será alheio o facto de, por um lado, a taxa de desemprego estar num nível historicamente muito baixo (cerca de 5,8%) e do mercado de emprego estar mais dinâmico do que nunca em praticamente todos os setores de atividade económica (4,9 milhões de pessoas empregadas numa população ativa de 5,2 milhões de pessoas) que faz com que as pessoas tenham possibilidade de passar de uns setores para os outros com muita facilidade. Ou seja, há pouca mão de obra disponível e a que existe é muito disputada.

Por outro lado, existe uma enorme resistência, sobretudo dos trabalhadores portugueses, em querer ingressar no turismo devido às condições de trabalho que estão habitualmente associadas a este setor de atividade, nomeadamente a duração das jornadas de trabalho mais longas, o trabalho noturno e ao fim de semana, a sazonalidade ou os salários abaixo da média dos outros setores de atividade económica.

Esta enorme dificuldade na atração e retenção de talento no setor apenas tem sido minimizada pela disponibilidade e aumento brutal do número de trabalhadores estrangeiros a ser contratados pelo setor. Não sendo um problema exclusivo do setor do turismo, mas sim da generalidade dos setores de atividade da economia portuguesa, a verdade é que no espaço de 7 anos o número de trabalhadores estrangeiros inscritos na Segurança Social aumentou 62 vezes. Passamos de 10 mil trabalhadores em 2015 para 630 mil trabalhadores em 2022. E, com a flexibilização da “lei dos estrangeiros”, nos últimos dois meses de 2022, mais 144 mil estrangeiros sinalizaram a sua disponibilidade para trabalhar em Portugal (maioritariamente oriundos de Marrocos, Cabo Verde e Índia).

Para se falar sobre o futuro e sobre os empregos do futuro é preciso, em primeiro lugar, olhar para trás e perceber o que tem acontecido ao longo dos últimos anos. É preciso também ter consciência do atual estado da arte. E, depois sim, analisar as forças de mudança que vão impactar o setor e perspetivar os cenários futuros.

Ora, feito o enquadramento inicial, julgo que é relativamente consensual que o futuro do setor do turismo vai ser marcado pela influência de diversas macrotendências, incluindo a evolução da demografia e globalização, as alterações climáticas e preocupações ambientais, a tecnologia disruptiva ou as alterações dos hábitos de vida e de consumo.

Nesse sentido, é relativamente expectável que um conjunto de profissões venham a ter uma grande procura no turismo do futuro, incluindo-se neste lote:

Gestores de turismo sustentável: à medida que mais viajantes se preocupam com o impacto do turismo no ambiente, haverá necessidade de especialistas que possam ajudar os operadores a desenvolver e implementar práticas de turismo sustentável.

Especialistas em realidade virtual e aumentada: com o crescimento da tecnologia de realidade virtual e aumentada, haverá uma necessidade de especialistas que possam criar experiências imersivas para os turistas.

Especialistas em comunicação e marketing digital: à medida que cada vez mais viajantes utilizam as redes sociais e plataformas online para planear e reservar as suas viagens, haverá necessidade de especialistas que possam alavancar a comercialização de destinos e experiências através destes canais.

Gestores de viagens personalizadas: com o aumento da procura por viagens personalizadas e a economia da partilha, haverá necessidade de especialistas na conceção e planeamento de experiências de viagens verdadeiramente personalizadas e únicas.

Especialistas em cibersegurança: à medida que mais informações e transações turísticas se realizam online, haverá necessidade de peritos que possam proteger dados sensíveis e prevenir ataques cibernéticos.

Especialistas em inteligência artificial (IA): à medida que a IA e a tecnologia de machine learning continuam a avançar, haverá necessidade de peritos que possam desenvolver e implementar soluções alimentadas por IA, tais como “chatbots” e recomendações personalizadas.

Apesar do enorme potencial de digitalização e automação do setor, o turismo é e continuará a ser uma atividade de pessoas e para pessoas, pelo que as soft skills relacionadas com o foco no cliente, o compromisso com o trabalho e a empresa, aliadas à criatividade e à inovação continuarão a ser, indubitavelmente, as competências chave mais apreciadas pelos empregadores, e quem as dominar terá certamente um futuro risonho neste como noutro setor de atividade.

– artigo de opinião do Diretor Geral da AEB, Rui Marques, no Jornal Correio do Minho

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